para a jô querida,pq a gente ainda gosta de brinquedos...
aqui: para voltar a ser criança...
praticante da fina e complexa ciência do achismo+projeto de mulherzinha crafter
uma comunidade ribeirinha, localizada às margens do Rio Negro, se dedica anualmente a um rito um tanto peculiar. Há duas décadas foram achados os trapos das roupas de uma menina morta. O vestido é adorado e uma vez por ano, a própria menina fala pela boca de Santinho, o personagem central da história. Interpretado visceralmente pelo ator Daniel de Oliveira, Santinho é uma espécie de líder espiritual da região, faz milagres (ou pelo menos o povo acredita que ele faz) e dá bênçãos a uma infinidade de pessoas.
É nessa dicotomia entre o santo e o profano que o filme irá se sustentar. É entre o olhar denuncista (que vê um povo ignorante e carente ao ponto de adorar um vestido rasgado) e o olhar antropológico (que enxerga a beleza de manifestações populares tão distintas como essa) que A festa da menina morta se baseia. Assim, Nachtergaele é capaz de nos apresentar uma obra repleta de poesia. Mas uma poesia calcada na vida comum de uma população simples com pretensões não maiores do que o bem viver.
mais? em Moviola
Desde os quatro anos uso óculos: pobre menina míope e estrábica, que mesmo entrando na faca aos nove ainda hoje enxerga o distante fora de foco. Três internações por pneumonia, um coração de mãe partido por ter posto no mundo menina tão frágil, e uma ninhada de gatos a chiar no peito. Destra, tenho o dedo médio torto, resquício de professoras loucas que adoravam mandar fazer cópias e mais cópias, entre gritos e maus tratos. Contrariando a regra, virei professora. Com o tempo o cabelo que era liso tornou-se enroladíssimo, fazendo a mãe remontar a tempos ancestrais e procurar a origem de filha tão peculiar. Aos doze foi diagnosticada uma escoliose dorso-lombar que vem, paulatinamente, me arrancar dor e dinheiro, aplicado em relaxante muscular. Pro lado esquerdo. Nadei, nadei e nadei, na tentativa de amenizar os efeitos da má postura, porém meu lado esquerdo continuou dolorido.
Entrei na militância estudantil.
tá, eu li pouco. por mais que eu diga que sou bem sabida em literatura (opaperalá, eu não fiz letras!) e por mais que eu tenha lido por aí, principalmente literatura marginal (ai, sempre eles!), admito que faltou uma coisinha básica mas fundamental: ler os clássicos. a minha lista de livros imperdíveis é longa, e será inaugurada por Alice, que ganhei de presente do namorido ("como assim, vocÊ nunca leu?"). Vale dizer que o livro é lindo e cuidadoso, com inumeras notas e comentários, além das ilustrações.Já tem uma semana que meu pai me deu um abraço, o primeiro e inaugurador dos meus 28.
Nós nunca tivemos uma relação de proximidade física: embora as conversas fossem sempre longas e o interesse dele por tudo o que faço fosse continuo e crescente, o máximo que havia recebido até então era um aperto de mão e um parabéns quando entrei na faculdade. Só.
Festa de fim de ano, casamento, nascimento, nada. Quando a mãe dele morreu só o vi chorar no instante em que o caixão desapareceu naquele buraco, e o máximo que consegui fazer foi oferecer um lenço. Só. Me arrependi de não o ter confortado com um abraço, mas ao mesmo tempo eu não sei como se conforta alguém que perde a mãe.
E então ele vem do nada, com uma alegria gratuita, me abraça e diz: Parabéns pelos seus anos bem vividos.
Devia tê-lo abraçado mais.