terça-feira, 12 de maio de 2009

trilha sonora do mês

Vento de raio
Rainha de maio
Estrela cadente

Chegou de repente
O fim da viagem
Agora já não dá mais
Pra voltar atrás

Rainha de maio
Valeu o teu pique
Apenas para chover
No meu pique-nique

Assim meu sapato
Coberto de barro
Apenas pra não parar
Nem voltar atrás

Rainha de maio
Valeu a viagem
Agora já não dá mais...

Nisso eu escuto no rádio do carro a nossa canção
(Vento solar e estrelas do mar)
Sol girassol e meus olhos ardendo de tanto cigarro
E quase que eu me esqueci que o tempo não pára nem vai esperar

Vento de maio
Rainha dos raios de sol
Vá no teu pique
Estrela cadente até nunca mais
Não te maltrates
Nem tentes voltar o que não tem mais vez

Nem lembro teu nome nem sei
Estrela qualquer lá no fundo do mar
Vento de maio rainha dos raios de sol

Rainha de maio valeu o teu pique
Apenas para chover no meu pique-nique
Assim meu sapato coberto de barro
Apenas pra não parar nem voltar atrás

Todas as manhãs atravessa a rua calmamente, na esperança de que um carro a atinja em cheio, batida lateral, som oco, queda, um fio de sangue, como naquele filme que ela chorou horrores, mas dessa vez sem o fim trágico, apenas uma fuga leve.

Teria o sangue, as gentes atônitas rogando pragas no transito, sempre ele, a ceifar vida de jovens feito ela, o moço da CET entediado com mais um desvio pra fazer, a ambulância em zigue zague, dá licença por favor, chacoalhar e sirene, hospital, as maravilhas da industria farmacêutica e tudo bem.

Tudo bem e cuidados, tudo bem e carinhos, tudo bem e atenção, tudo bem e descanso em casa, tudo bem e eu tive medo de te perder, tudo bem e desculpa por tudo, tudo bem, tudo, tudo bem. A vida voltaria ao seu curso e apesar do susto todos estariam felizes.

Mas a vida não é filme e você não entendeu...

Todas as manhãs atravessa a rua calmamente, na esperança de que...

maracujina em doses cavalares em breve não dará mais conta do recado.

perigo iminente!
ainda em tempo:
o mundo é hipocondriaco, fato!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

depois de uma overdose de Indiana Jones na adolescência, quis me tornar arqueóloga: fiz o curso de história, me encantei pela educação e hoje estou a anos-luz de uma escavaçãozinha. na fase deprê decorei todas as músicas do Los Hermanos e do Gram (lembra?). esqueci metade. aprendi a gostar de berinjela, couve, tomates: na ausência materna, alimentação sai mais barato que remédio.

quase casei, quase mudei, quase pirei, quase morri.

bebi pouco, amei muito.

rodei alguns quilômetros e conheci muita gente: fui muito além do que esperavam de mim. mas ainda não sei o que devo esperar.

guardo o Paulo Leminski e o Caio F. na estante: minhas preciosidades.

acho bacana Amelie Poulain, mas vivo numa fase meio Miranda July.

cansei de ser mandada.

um dia entendi que eu não cabia no lugar onde eu morava. que era necessário partir, questão de vida ou morte, isso já tem dez anos. até hoje não sei direito a que mundo pertenço. vivo aqui e ali: entre o meu depósito de coisas e o corpo que me aquece todas as noites.

ainda gosto de bandas de rock. ainda não fiz um curso de história da arte, ainda guardo bonecas, ainda tenho as cartas de amor-perdido, ainda uso melissa. minha amiga foi pra longe, e os de perto estão cada vez mais distantes.

um amigo diz que aos 29 tem o retorno de saturno, e a gente tem que se apegar a isso pq afinal a gente ouviu muito Legião na adolescência e deve ter algum sentido nisso tudo. muita coisa mudou.

eu espero o inferno astral passar

coisas para fazer em sp quando se está sozinha:

arrumar a casa dele;

arrumar a sua casa;

fazer um jantar com as coisas que vc nunca comerá na presença dele, como cenoura com beterraba com salsa com ervilha e com tudo o mais;

passar horas no MSN com gente de longe que você adora;

fazer arte;

ir dormir sem tomar banho (hohoho);

confabular sobre os sons da cidade: a ambulância que sobe a rua, a vizinha que briga com o marido, o gato perdido;

fuxicar a vida alheia, gente que vc gosta ou que vc odeia (hohoho);

visitar a mãe, a tia, rever os vizinhos e ter certeza, mais uma vez que ali não é o seu lugar;

arrumar o guarda roupa;

rever os bilhetinhos de amor perdido, as cartas antigas e ter certeza de que o mundo mudou, e vc também.

assistir a todos os capítulos das séries e procurar por outras;

deitar na rede e olhar o trânsito;

fazer mais arte;

ler TODOS os cadernos da Folha;

cuidar, meticulosamente, das plantas;

contar os minutos para a volta dele.

A moça e sua prancheta:

- oi, você pode responder a algumas perguntas?

- Simclarobvio, porque não?

(pobres moças, passam o dia atrás de alguém que queira contar sobre o xampu, o arroz, o programa de TV e o sabor da gelatina)

- então, quantos anos você tem?

- 27!

- ai, desculpa, mas é que precisamos de meninas com até 20...

(pronto. Meu brinde aleatório-qualquer-bobagem deu tchau no viaduto do chá. E o meu ego, lá em cima: perto dos 30, com cara de 20. dilicia!)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

às vezes, bem às vezes, eu acredito que a cidade ainda tem jeito:




desde quarta-feira percebi o movimento das pessoas em busca de uma programação da Virada Cultural. pessoas comentando, planejando seu roteiro pela noite, elegendo os shows imperdíveis. no sábado, por volta das oito da noite, comecei minha perambulação habitual pelo centro, e aquilo tudo me arrepiou: os franceses malucos e suas invenções, a dança no Vale, os punks vestidos à caráter em harmonia na República. me emocionei com o senhor negão e seus dois meninos, de cabelão black, vestidos lindamente pro baile.





Fui dormir




no dia seguinte o cenário era deprimente: muito lixo (MUITO MESMO), cheiro de urina e bebados e/ou chapados caídos pelas esquinas e gramados, alguns em cima do próprio vomito (ou de outro?).
daí essa coisa de acreditar que a cidade tem jeito e pregar isso pra todo mundo foi um pouco por água abaixo. porque quem me conhece sabe muito bem que sou uma entusiasta do Centro e em especial da Virada, e que acredito que as pessoas precisam retomar esse espaço, central na historia da cidade e na historia de vida de cada um que a habita, mas depois do que vi não sei se a iniciativa vale mesmo. porque as pessoas vem, se divertem, sujam e vão embora. o movimento de ocupação do Centro não é continuo e, sem sensação de pertencimento, o cuidado é zero.




uma pena.




eu continuo aqui, moradora-reclamona do centro, acreditando que um dia as pessoas virão pra cá livre de seus preconceitos, para admirar toda a riqueza e diversidade, e não só pra ver a maria rita.

ps: apesar das coisas ruins, no meio daquela multidão de gente era possível perceber olhares curiosos para a arquitetura e a dinâmica do centro. Talvez o mundo ainda tenha jeito...
... o tempo passou e o telefone não vibrou, a mensagem não chegou, a campainha não tocou. reviu seus passos nos últimos meses na tentativa de encontrar uma razão, mas nada.
nenhuma explicação para aquela solidão assustadora: socorreu quem precisou, escutou desabafos, acompanhou. E de nada adiantou: passou a noite sozinha, na espera de que alguém...

foi encontrada algum tempo depois, quando já era tarde.