domingo, 12 de junho de 2011

presente público, nítido e explicito de dia dos namorados

ou

faltou grana mas eu te amo mesmo assim.

Eu não acredito em alma gêmea, amor à primeira vista, príncipe encantado, “felizes para sempre” e todo esse bla bla bla romântico que, para mim, só faz sentido para as moçoilas de quinze anos virgens&puras (hohoho). Eu acredito naquilo que vivo, e é essa a razão desse texto-presente: o acaso, um encontro e o universo que se abriu pra mim.

abre parênteses

Em 2005 eu já não acreditava na revolução nem no amor, apenas no rock. Voltei do Fórum Social Mundial (esse foi o último em Porto Alegre) com cd’s de uma banda local que ainda era bem tímida nas rádios daqui, a Bidê ou Balde. Ouvi, gostei e virei fã. Fui na gravação de um Acústico MTV (bandas gauchas, lembra?), em shows e, por fim, na gravação de um programa da MTV, o Fanático, que consistia em dois times respondendo questões sobre a banda e uma platéia desejosa pelo showzinho do final. E é aqui que a nossa história se cruza: postei lá na comunidade da banda no finado orkut as informações para aqueles que tinham interesse em participar do programa. Um fulano me pergunta se a coisa toda iria acontecer em Porto Alegre, me adicionou e se transformou em mais uma daquelas fotenhas que estão lá e você não se lembra ao certo a razão.

Pausa

Em 2007 a mesma banda volta a fazer show em São Paulo, pra delírio da galere. Como de hábito, na comunidade as pessoas fazem seus comentários, postam suas fotos, vídeos e trocam gracinhas (gente, aquela comunidade era diversão pura). Escrevi qualquer bobagem e um fulano responde: “acho que vi a telma. reconheci pelo cabelo”. Eu não podia deixar um comentário desse passar em branco, né? Fui responder e vi que sim, aquele cara estava na minha lista de amigos sabeládeus porque (memória de formiga). Adicionei no msn, começamos a prosear, e foi assim que ele explicou porque constava entre os meus amigos, e contou também que estava aqui há pouco, menino do interior do Rio Grande do Sul que veio pra São Paulo tentar a vida e estudar fotografia, deixando para trás a família e um amor que já estava no fim.

Eu, obviamente, disse “quer ajuda para conhecer a cidade?”, e foi assim que a nossa história (re)começou.

fecha parênteses

A gente se juntou na Praça da República com o objetivo de conhecer a cidade. Acabamos nos conhecendo, num revezamento insano entre os nossos apartamentos, até ter o nosso apartamento. Nesses quase quatro anos de convivência só posso dizer que, sem ser piegas, ele me liberta: aprendi muito sobre o mundo e sobre quem eu sou de verdade, sobre carinho, respeito e parceria, sobre família e amizade, mas sobretudo sou mais livre. Entendi que os relacionamentos não são perfeitos, as brigas são inevitáveis mas sempre existe o amanhã, a conversa mais coerente e o retorno à calmaria.

E eu sou muito feliz com ele, apesar da dor nas costas, da grana curta e do frio que faz em São Paulo. Porque ele me deseja, apesar dos quilos a mais, ri das minhas gracinhas e ainda me acha linda, mesmo eu já fazendo parte do time das mulheres de 30. Porque passeamos de mãos dadas no sol de domingo, recebemos os amigos aqui em casa no sábado à noite, cuidamos de dois hamsters que vivem brigando, porque viajamos e compartilhamos descobertas, porque fazemos planos e assistimos TV no final da noite, sob o edredom.

Porque ele vai na 25 de março comprar coisinhas para mim, porque ele acredita no meu potencial, porque temos uma visão de mundo semelhante, porque ele me leva pro hospital em caso de necessidade, porque ele roça o pé no meu toda noite, me lembrando que eu não estou sozinha no mundo.

Eu não sei quanto tempo dura. Sei que por hora ele me faz muito feliz ♥


sexta-feira, 10 de junho de 2011

festerê de 30

Pronto, fiz 30 anos. Achei digno e certo comemorar essa marca de algum modo, por mais que a vida esteja complicada nos últimos meses (oi? vc acabou de entrar aqui, não entendeu nada? Volte um pouco e leia minha historinha!)

Chamar os amigos para ir a um bar esbarra em alguns problemas:

a) bar você pode ir qualquer dia, né? Além de passar pelo problema da quantidade de pessoas/mesas disponíveis, ir a um bar é algo impessoal, e as pessoas não ficam de fato à vontade

b) valores: cada um paga o que consome, mas bar legal de verdade cobra um valor alto de entrada, o que poderia impedir a presença dos meus amigos ex-FFLCH-mãos-de-vaca

c) eu sinto dor, e volta e meia preciso sentar ou dar uma deitadinha. No bar não rola, né? E no mais, maio é um mês frio e propício à chuva e, como todos são feitos de açúcar...

Diante de todas essas questões resolvi fazer uma festchenha aqui em casa: lugar quentinho&aconchegante, música conforme o gosto do freguês, sem horário para acabar, comidinhas por minha conta e um adicional importantíssimo: games! Wii e PS3 pra diversão da galere.

Organizei a brincadeira da seguinte forma:

- fiz uma mesa de salgados, com azeitonas, pepinos em conserva, picles, cebolinha, salame, peito de peru, mussarela, provolone e gorgonzola (tudo isso comprado na zona cerealista por um preço digno), quatro tipos de patês e pães variados.

- para completar a parte “salgada” da festa fiz caldinho de feijão, bem quentinho e temperadinho com bacon, alho e salsinha fresca, que foi servido nas canecas que já tínhamos (olha, desconheço casal com mais canecas que a gente)

- na ala “doces” tinha brigadeiro de colher, feito com cacau em pó e com chocolate+café, jelly shots de morango e framboesa e, para substituir o tradicional bolo, cupcakes com cobertura de nutella.

- para decoração... QUE DECORAÇÃO MINHA GENTE? Só mudei os móveis de lugar, abri espaços, liguei a luz vermelha (adoro vermelho). Eu tinha garrafas pequenas de cervejas, que salvei da faxineira e que se tornaram lindos vasos para gérberas, que foram arrematados com laços vermelhos espalhados pela casa. Fiz ainda plaquinhas para a identificação das comidas, em papel de scrap e só!

Como eu já tenho um histórico de aniversários-fiascos, não nutri muitas expectativas: esperava umas 15 pessoas no máximo, mas no final das contas tínhamos 27 pessoas, que ficaram muito bem acomodadas entre a sala/cozinha/área de serviço e que se revezaram no Rock Band e o Dance Dance Revolution, e pelo que tudo indica todos se divertiram muito, pois do contrário não teriam ido embora as três da manhã, certo?

Sim, dá trabalho, sim, faz sujeira (no caso, foi bem pouca) e sim, é MUITO LEGAL.

E já estou aqui, planejando a próxima festinha...

Uma parte da festa...

caldinho de feijão, nham-nham!

cupcakes, um para cada ano.

brigadeiro de colher com confeito nada tradicional

patês na louça improvisada: consomê pintado a mão por uma amiga (e isso merece outro post)

outro ângulo da mesa, com as canecas para tomar sopa

O convite, virtual claro, porque somos modernos e conectados:

Assim ó:
No próximo sábado faço 30 anos, e tal data merece ser marcante (daqui pra frente a tendência é piorar). Por isso resolvi reunir pessoas aqui em casa pra comer, beber, falar bobagem e quem sabe talvez esperar o fim do mundo. Tá desatualizado? http://migre.me/4xuaR. Vem, vai ser legal!

ou

Faz pouco mais de um ano que rolou o ajuntamento de escovas de dente e não houve nenhuma cerimônia, nenhum evento, nenhum chá de panelas ou de cozinha pra marcar a união, pois na época e um pouco depois da tal época ficamos super enrolado com varias questões, que de certo modo atrapalharam a realização de qualquer evento social. Agora que a vida ta tranqüila a gente pode, finalmente, chamar as pessoas para o próximo sábado, dia 21, pra conhecer nossa casa, pra beber, comer, falar bobagem e talvez esperar o fim do mundo.

Então, serão dois eventos numa só data e local, olha que beleza!

O combinado é simples: chegar por volta das 20:00 e trazer bebidas! O salgadinho de isopor e os amendoins ficam por minha conta. Não será assim, uma meeeega balada pois afinal os vizinhos são um pouquinho chatos e eu não estou em condições físicas para fazer lá grandes coisas (oi, eu sou uma pessoa de quase 30 com coluna de 62) Ah sim! Pode trazer também o seu jogo preferido: quem sabe até role uma partida de dominó, war, poker, hein? Caso tenha a bateria e/ou guitarra do Rock Band, traz também!

(tem gente nessa lista de convidados que encontrei na semana passada bem como outros que não vejo há muito, muito tempo. Não interessa: se está nessa lista é porque realmente gostaríamos de ver por aqui!)

"quero aprender a ler pra poder casar"

A vizinha me pediu ajuda: a essa altura do campeonato, pouco mais de quarenta anos, filhos encaminhados, emprego que garante uma vida modesta e casa na praia construída nos finais de semana, mesmo depois de tudo isso ela quer mais. Deseja aprender a ler e escrever, desejo que lhe foi negado pela vida, quando engravidou aos 14, foi expulsa de casa, morou de favor, precisou trabalhar o máximo para garantir o mínimo, ou quando casou e não encontrou apoio no marido, quando foi explorada e mandou ele embora, ficando com os três filhos pequenos e nada mais.

Sua razão, a mais nobre possível: quer aprender a ler e a escrever, pois seu namorado, futuro noivo, é um italiano que mora por hora no Rio e deseja voltar para a sua terra natal, com ela a tiracolo. Quer aprender tudo o mais rápido possível, pois teme pelo futuro do relacionamento, já que ele não sabe sobre o seu analfabetismo ou, caso vá morar na Itália, que a sua vida seja impraticável por lá.

Aceitei o desafio, e iniciamos os nossos encontros.

A tal vizinha já estava fazendo aula particular aqui mesmo no bairro, e queria que eu desse um “reforço”. Além da sondagem inicial, da escrita do nome e do reconhecimento das letras do alfabeto, pedi para que ela trouxesse o material que a outra professora está trabalhando. Hoje ela trouxe, toda feliz, e esse é o motivo desse texto:

A PROFESSORA DEU UMA CAMINHO SUAVE PRA ELA!

Meu primeiro impulso foi queimar, juro. Não que eu seja uma pessoa adepta da fogueira de papel, sou uma tarada por livros, mas cartilha, e Caminho Suave, é forçar a barra, porque fui alfabetizada com esse livro, composto de frases sem sentido como “vovô viu a uva”, e exercícios de repetição e cópia, nada significativos, além de conteúdo infantilizado para um adulto.

Ao ver aquela cartilha e a série de exercícios de cópia solicitados pela outra professora, ficou uma coisa muito evidente para mim:

O fracasso escolar da minha vizinha (e de tantos outros) deve-se a sua vida complicada, mas muito mais à escola, na figura da instituição ou dessa professora aí e de tantas outras, que ignora e não se sensibiliza com as dificuldades e necessidades alheias, infantilizando o aluno e o tratando como idiota. Porque, colega, mandar uma senhora copiar uma série de palavras sem sentido algum não dá, né?

Por hora eu faço o que posso, começando do nome dela e das filhas, que é o mais significativo dos pontos de partida. E vamos acelerar o passo, dado que ela fica noiva nesse final de semana e, segundo suas expectativas, o casório acontece daqui a uns três meses, pois afinal o amor não pode esperar

(trecho da Caminho Suave: pura diversão)




domingo, 15 de maio de 2011

Olha,

Eu li a matéria na Folha e achei o fim da picada um grupo de moradores de Higienópolis, um grupo pequeno até, fazer pressão sobre o governo do Estado e conseguir mudar o endereço de uma estação de metrô. Fiquei indignada com os argumentos utilizados por uma moradora do bairro, relacionando transporte público a concentração de pobres no entorno, e de camelôs e sei lá mais o quê que esse grupo traria a tiracolo.

Depois de ler isso, lembrei de um acontecimento que me deixou com a pulga atrás da orelha por muito tempo:

A Mari é dona do Zé, um Chevette antigão, que apesar da aparência meio abatida não deixa ninguém na mão. Pois bem, há pouco tempo estávamos saindo de um evento, e eu estava com dor. Ela, boa amiga, antes de me deixar em casa resolveu encontrar uma farmácia de plantão para comprar analgésicos, e a única aberta ficava justamente do lado Jardins. Estacionou o carro na frente da farmácia, foi comprar as coisas e quando voltou viu duas dondocas com seu carro importado estacionando na vaga da frente e batendo levemente no Zé, causando um amasso. Quando questionadas, as duas dondocas olharam pro carro com cara de desprezo e soltaram um “mas ele já está todo amassado, não faz diferença mesmo” e deram as costas. Mari, uma mina do ABC com sangue nos zóio pisou no acelerador e ameaçou bater no carro das fulanas. Ameaçou, manobrou e fim, voltamos pra casa. O que mais nos deixou indignadas não foi a falta de educação das fulanas, mas o desdém, a indiferença. A conclusão: aquele não era o nosso lugar. A cidade tem territórios muito bem definidos e num lugar que não é o seu você não é nada.

Voltando a matéria da Folha e a polêmica toda, vi que fui convidada pro evento “Churrascão de gente diferenciada”. Achei graça, confirmei minha presença. Nada demais até ficar assustada com a velocidade que o evento ganhou adeptos e comentários bem humorados, virando notícia em sites, blogs, twitter e no SPTV.

Conversando com o marido jornalista-de-meia-tigela, elaborei algumas conclusões baseadas na ciência do “achismo”, (da qual sou ótima praticante): que hoje a gente vive num mundo onde a mobilização não é mais “vamos fazer faixa-manifestação-parar a Paulista-chamar os sindicatos e movimentos sociais”. Hoje as causas e críticas se alastram pela internet e ganham adeptos numa velocidade assustadora e quase perigosa (quem verifica se a informação procede?), e as manifestações se limitam ao mundo virtual, aos eventos do facebook ou aos TT´s no twitter, com contornos engraçados e irônicos, tudo feito no conforto do lar, sem riscos ou custos. Ou seja: a gente vive um tempo de manifestação babaca, engraçadinha e acomodada.

Ok, o evento “fake” se tornou real, a galera foi lá, fez manifestação bem humorada, ganhou ibope, virou noticia, cutucou as pessoas e merece seu mérito. Os moradores de Higienópolis são burgueses babacas e o povo, coitado, precisa de uma estação de metrô pra chegar mais rápido ao seu emprego de zelador, faxineira ou cuidador de cachorro. Desculpa, mas não é só o morador de Higienópolis que olha torto pro povo: e as dondocas dos Jardins, do Morumbi, do Brooklin? O problema é mais amplo que esses clichês, e passa pela distribuição de renda e pelo o modo como os espaços da cidade são ocupados.

Com metrô ou não, a disparidade continua e a cidade permanece dividida entre ricos que mandam e moram bem e pobres que obedecem e permanecem na periferia.

(cresci ouvindo dizer que morar em São Paulo era um luxo não permitido pra gente como eu, pobre, que deveria permanecer na periferia. Eu acho que se as pessoas pudessem morar nos imóveis do centro a briga por metrô seria infinitamente menor, pois os deslocamentos seriam curtos e possíveis de serem feitos, por exemplo, de bicicleta. Mas temos uma prefeitura que nada faz nesse sentido, né? E então a gente tem um centro vazio utilizado por traficantes/drogados/moradores de rua. E e o trabalhador que precisa se locomover muitos quilômetros pra chegar ao trabalho, como fica?

Vota no Kassab, gente!)

a sala que eu queria pra mim...

montada para a red bull house of art
residência artística que ocupou o Edifico Sampaio Moreira, no centro, até hoje :(

quinta-feira, 5 de maio de 2011

cansei

Hoje foi o dia do basta, do chega, do saco cheio, da falta de perspectiva geral. E de uma vontade imensa, entalada na garganta, que será explicitada no fim dos longos parênteses, para situar a galére que não me conhece/não faz idéia do que tá rolando[1].

Loooooooooooongo parênteses:

Um dia eu senti uma dor bem forte, disso todo mundo já ta careca de saber. Não sei se as pessoas tem clareza de que fui em pronto-socorros de hospitais públicos CINCO VEZES e não me mandaram fazer nem sequer um exame. Só soube a causa da minha dor depois de pagar médica e exame particulares. Ao saber o diagnóstico, bem assustador, e a solução, mais assustadora ainda (preciso tirar a hérnia de disco e colocar seis pinos que garantam a estabilidade da minha coluna) corri fazer um plano de saúde e retornei ao hospital público, onde NEM SE DERAM AO TRABALHO DE OLHAR, MESMO QUE DE RELANCE, O MEU EXAME.

Saiu o número da carteirinha, corri para um especialista, que deu EXATAMENTE O MESMO DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO que a médica anterior, mas ele apresentou uma possível solução: dar entrada no pronto socorro do hospital onde há a cobertura do meu plano de saúde com uma carta em mãos explicando a urgência do caso e solicitando os exames pré-operatórios. Então, ontem dei entrada no hospital de gente fina&rica, toda linda, e estava crente que seria a feliz dona de seis pinos. Exames pré-operatórios realizados, negativa do convênio, retorno pra casa, ódio no coração.

Última tentativa, Hospital das Clínicas. Porque todo mundo tem uma tia velha ou uma vizinha que conhece alguém que veio do interior do Acre, fez tratamento e voltou pra floresta todo serelepe, tudo bem fácil. Achei que como era um caso de urgência (que fique claro que esse foi um termo utilizado por dois médicos especialistas em coluna e donos de currículos lattes in-ve-já-veis) eu ia chegar lá no pronto-socorro com cara de dor e iam resolver meu caso, e assim eu poderia voltar a ser uma professorinha superbacana em breve. Me enganei MUITO: embora tenha perdido a sensibilidade na panturrilha, embora eu esteja com muita dificuldade em caminhar, abaixar, além da dor constante que se irradia para as duas pernas, ainda assim EU TÔ ANDANDO! Ou seja, não é um caso de urgência. PORQUE SÓ É URGENCIA QUANDO EU PARAR DE ANDAR! Me deram uma receita cheia de remédios fortes, me indicaram fazer fisioterapia pra fortalecer a musculatura da coluna e esperar passar a carência do convênio, pois fazer cirurgia pelo SUS pode demorar muito. EU POSSO COM UMA COISA DESSAS? POSSO?

Por isso, por esse absurdo de ir em hospitais públicos SETE VEZES, sendo que dessas idas CINCO foram ao HOSPITAL DO SERVIDOR PÚBLICO MUNICIPAL, (sou professora da prefeitura de SP, que fique claro) pelo absurdo do destrato a que fui submetida, absurdo e ônus que a minha ausência ao trabalho causa, absurdo de todo esse texto longo, truncado e cheio de raiva, o meu desejo mais sincero é bater no kassab, xingar, sei lá. Porque não vale a pena ser legal, não vale a pena se dedicar ao serviço público e não serve pra nada o imposto pago por todo mundo.

E acabou por aqui.

Daqui pra frente vou ter uma vida legal apesar da dor, vou esperar pela consulta no HSPM marcada pro fim de maio, vou aproveitar a licença remunerada e o meu tempo livre em casa, vou fazer uns trampos (aceitamos freelas), vou vender o meu artesanato e vou rir muito de tudo isso.

Me convidem pra beber :)

[1] Onde a letra é maiúscula de fato EU ESTOU GRITANDO. Tô nervosa, ignora ae.

terça-feira, 3 de maio de 2011

dos desejos

Dia 21 entrarei no seleto mundo de mulheres de 30 anos. Elas são bem sucedidas, inteligentes, sagazes, ousadas, lindas, magras, seguras, tem as unhas perfeitas, são desafiadoras, assistem a todos os programas do GNT, usam perfume caro e roupa de grife, são viajadas e leitoras da revista Nova. Ok, estou a anos-luz disso tudo e quero permanecer assim, contrariando as leis da natureza e a sociedade de consumo (oi?), mas ainda assim sou dona de vontades bem-bestas, tá?

Por isso segue a minha lista de desejos de aniversário:

- uma coluna nova acompanhada de um médico lindo, como o Chase;

- botões, porque eu AMO! Pequeno, grande, antigo, de camisa, brega, qualquer um eu aceito (de preferência mais de um);

- um curso de corte e costura fácil para costurinhas básicas e à toa, como esse aqui;

- uma tatuagem do tamanho da palma da mão no braço direito;

- seis cadeiras, iguais a essa aqui ó (gente, eu mereço uma sala de jantar digna);

- pedacinhos coloridos de tecido, como os de patchwork;

- um show da Bidê ou Balde num lugar bem legal e que eu possa ir (porque o de amanhã eu não vou, ordens médicas);

- um “faz-tudo”, pra colocar minhas prateleiras no lugar e fazer outros pequenos reparos aqui em casa;

- um passeio pela rua da Gasômetro com tudo pago;

- um passeio pela rua 25 de março com tudo pago;

- melissas!

- roupas bonitas da Brazoo;

- uma assinatura da revista Minha Casa (sou doméstica);

- compradores para as mais de 50 tiaras que fiz nessas semanas em que fiquei em casa (malditas ordens médicas);

- perder alguns bons quilos (tem mágica a venda no supermercado?);

- monin nos mais variados sabores (vamos alcoolizar a coisa toda na próxima garrafa);

- menos trabalho e mais dinheiro;

- uma fôrma para cupcakes e acessórios (sou doméstica e cozinheira)

- temperinhos e ervas, MUITOS (sou doméstica e cozinheira mas não sou drogada);

- eu já falei uma coluna nova?

- saúde, para que todos os planos malucos como ir pra Bolívia ou ir pro Chile ou bater perna pelo centro ou costurar ou dar aulas ótemas e ser uma boa professora ou receber os amigos e cozinhar pra eles ou fazer um TCC bacanudo ou ter um filho com o meu moço possam, de fato, virar realidade.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sou um cavalo

Um mês e meio de confinamento iniciado no dia dezesseis de março, dia do travamento geral, quando a dor foi insuportável e fui obrigada a passear na Santa Casa na ala ortopédica. Desde então, remédios, remédios, exames, conversas com médicos, raiva do sistema público, raiva da prefeitura de São Paulo que trata seu funcionário (no caso, eu) igual a lixo, raiva do mundo que não sabe que dói e que não passa, rombo na conta bancaria, limitação de movimentos.

Me indicaram uma médica supimpa, que olhou meu exame e foi direto ao ponto: “seu caso é cirúrgico”. Cerca de 5% dos casos de hérnia de disco precisam de cirurgia e, segundo ela, eu sou essa minoria. E enquanto uma segunda opinião não vem (dependo do hospital público ou da minha carteirinha do plano de saúde sair) eu vou vivendo assim, em casa, sem fazer nada. E em situação de esforço, levantamento de peso ou sabeládeus o que, eu corro o risco de entrar no estado de síndrome de cauda eqüina, que além de ser uma coisa horrorosa exige intervenção cirúrgica imediata. Isso segundo essa médica, que inclusive registrou no laudo médico: "apresenta hérnia lombar L4L5 e L5S1, sendo que neste ultimo nível a hérnia é muito grande promovendo grande estenose do canal lombar. Devido a essa estenose do canal lombar ser grande, a paciente corre o risco de síndrome de cauda equina". Chorei, tá!

Ou seja: a vida tá uma merda.

Para os alarmistas-trágicos, entendam: eu não estou torta de verdade, só não estou com uma postura corretíssima, pois isso dói. Não consigo ficar muito tempo em pé, ou sentada, a viradinha básica ao dormir causa desconforto e “uis”. Abaixar, nem pensar. Ficar na ponta do pé, idem. Fazer o “candelabro italiano” (fala do vizinho drag) é algo fora de cogitação. Mas sim, eu continuo fazendo coisas básicas, minha casa não se tornou um chiqueiro e meu marido continua feliz (hohoho).

Mas o pior, o mais horroroso disso tudo foi a constatação dessa tarde: engordei MUITO (oi, eu sou mulher e dramatica, ok?), minhas calças estãqo justíssimas e alguns vestidos, do tempo em que eu estava na faculdade, não fecham!

Tenho uma boa desculpa: tomei muito remédio a base de cortisona e outros, quase não queimo calorias (quantas calorias se gasta digitando esse texto? Jogando LBP?), nem em sonho posso fazer academia, pelo menos por hora (e eu já tinha fechado um plano na Curves, olha que azar) cozinho bem (ui) e tenho um marido que não colabora e traz para casa pudins, chocolates e coisas altamente engordativas.

Ou seja: to me sentido um ogro. Um ogro que pode virar cavalo.

O que fazer para fechar a boca geral?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

everybody lies

eu também acho.

em pequena ou larga escala, todo mundo. numa fase ou em outra da vida, para sentir-se melhor ou para oprimir o outro. no meu caso, hoje não mais. sei de mim, sei dos simulacros que carrego. sei que a vida é isso, eterna farsa encenada em palco, as vezes platéia cheia, as vezes não.

a mentira move o mundo...

quarta-feira, 30 de março de 2011

Não é vida sentir dor.

***

tem uma fase da vida que dor chega a ser poético, e a gente dói por todos os poros, uma coisa linda de se ver: dói o amor não correspondido, a indiferença do mundo, a desigualdade entre as pessoas, a ignorância alheia, dói a delicia da juventude.

mas agora, colhega, a coisa é de verdade.

tem uma dor que me acompanha a duas semanas e não me deixa em paz. E ela é real, limita meus movimentos e não é amenizada nem com o mais potente dos analgésicos/relaxantes musculares. Mas ela merece uma história:

eu tinha doze anos e nada na cabeça. Quis imitar a Claudia Raia num comercial de meia calça, fui lá, de meia de algodão, levantei a perna, caí de bunda, dor. A mãe, depois do riso obvio, me levou ao médico: o tombo não me causou nenhum dano mas nos fez descobrir a bonita escoliose adquirida anteriormente. Então, para começar o desentortamento o médico indicou o uso do tal colete de milwaukee, ou instrumento de tortura para adolescentes: eu, que já não era magra, usava óculos, tinha roupas estranhas, cabelo indefinido, ainda desfilava por ai com aquele coiso horroroso. Depois de cerca de seis meses, muitas chacotas e choro, desisti de usar o colete, para a raiva dos meus pais que gastaram muito com aquilo. Daí pra frente passei a esconder a minha dor: se eu a sentia, era responsabilidade minha, não é? Meus pais já haviam se esforçado, agora era comigo...

Escondi até mais ou menos 2007, quando rolou o primeiro travamento geral: eu senti a coisa ficando rígida, rígida, até que não consegui ficar reta. eu era uma pessoa curvada para o lado direito, com fortíssimas dores e dificuldades em andar. Tomei muito analgésico, muito relaxante muscular, fiz fisioterapia e voltei a nadar. E enquanto cabra-macho, agüentava a dor e ia trabalhar. Daí que, poucos meses depois, a dor parou.

Muita coisa acontecia: nessa época eu tinha enfrentamentos grandes com minha chefia, precisei voltar a morar na casa da minha mãe, pegava trem lotado pra chegar ao trabalho e tinha um namoro em ruínas. Minha vida estava um caos e em algum lugar a coisa precisava pesar. Pesou.

Mas agora não: tenho uma vida bacana, com um marido maravilhoso que me faz feliz. Tenho uma casa bonita, e moro super bem. Meu trabalho? Tenho uma chefe inteligente e humana, e umas parceiras que fazem valer a pena. E incrivelmente eu travei de novo.

E eu to aqui, com dor, há duas semanas. Passei uma noite na Santa Casa, sofrendo o descaso da saúde pública. Fui ao hospital que eu pago, mensalmente, e muito bem, o Hospital do Servidor Municipal, onde sim, eu fui bem atendida mas pronto atendimento é essa merda aí, o cara te receita injeções fortes e te dá uma licença médica. No meu caso, tirei duas, pois a terceira só é possível depois de passar por uma pericia médica. E imagina só, eu, funcionaria exemplar, passando em pericia para ver se eu estou apta? É quase a morte, hein?

E no mais, fico constantemente pensando sobre o limite da dor: ora, eu consigo caminhar, em passos lentíssimos, e consigo sentar e levantar de uma cadeira. A perna formiga muito, mas eu consigo me manter em pé. Eu devo ou não ir trabalhar? Eu engulo seco ou admito minha fragilidade?

E, pelo lado filhodaputa de ser, eu sou funcionária pública. Ou seja: posso faltar que não perco o emprego. Mas e a minha responsabilidade? E as minhas duas turmas de crianças de 5 anos? Como faz?

Dói muito sentir dor, mas dói mais ainda ter os movimentos limitados. Porque é difícil passar o dia todo em casa e não conseguir caminhar por ai, coisa que me faz muito feliz. Porque é um saco não conseguir ir trabalhar. Tentei, é verdade, mas esse meu passinho de tartaruga, essa minha incapacidade de amarrar os cadarços dos meus meninos e a impossibilidade de brincar de pega pega com eles me mata.

Acho que estou ficando velha, e o indicativo disso é essa coisa de sentir dor de verdade. De verdade.